sexta-feira, 3 de julho de 2009

Verão; recordar Eduardo Prado Coelho

Nestes dias de calor, em que visitamos ansiosamente as nossas agendas na procura de novos destinos de férias, faz bem recordar Eduardo Prado Coelho (EPC). Espaço, então, para EPC, para o Verão e para as Férias num texto publicado no Publico em 2002.

"A PRAIA FINALMENTE
por EDUARDO PRADO COELHO
Segunda-feira, 2 de Setembro de 2002, in Publico

Num belíssimo texto publicado há dias no suplemento "Babelia" do jornal "EL PAIS", o romancista e ensaísta Claudio Magris falava de qualquer coisa que todos nós sentimos, mas de que nem sempre temos plenamente consciência: a de que o Verão está a desaparecer.
Não, não se trata do reiterado tema contemporâneo de que "já não há estações" e não pretendo fazer qualquer prognóstico meteorológico. Nada disso, apenas o sentimento de que o Verão, o verdadeiro Verão, aquilo que foi o Verão da nossa infância, vai desaparecendo aos nossos olhos. Suspeitamos talvez de que o fenómeno não esteja bem contado: é possível que infância e Verão sejam sinónimos, e de que o Verão que parece perdido seja apenas a outra face do Inverno do nosso envelhecimento. Talvez. A idade mede-se pelos Verões que tivemos e pelos Verões que começamos a deixar de ter.
Mas que significa isto para Magris? Que algumas das características do Verão que incendiou de forma mágica os poentes da nossa infância se estão silenciosamente a desmoronar. Eu daria um exemplo: o Verão era para mim o enraizamento num lugar, com uma espécie de mobilização geral da família (havia os que estavam e havia os outros, tios, primos avós e sobrinhas, que passavam). Este enraizamento implicava uma outra experiência do espaço, que se definia por uma espécie de vizinhança generalizada: andávamos de casa em casa ao sabor das amizades e afinidades, hoje lanchava-se aqui, amanhã almoçava-se ali e no domingo íamos todos em excursão para uma praia, esperando que o excesso de vento não prejudicasse o consumo dos pasteis de bacalhau, das coxinhas de frango, das uvas e maçãs. No Verão, o tempo era longo, estiraçado, quase interminável, e havia espaço para o "flirt", a sedução, o jogo, amor, a leitura, o deslumbramento. Como diz Magris, gostar do Verão é não ter medo da vida, do amor, da felicidade - e da morte. E, por fim, no Verão jogávamos as cartas, dávamos longos passeios todos os dias e recuperávamos o prazer da leitura: os grandes romances foram feitos para as grandes tardes de Verão.
Nada disto desapareceu por completo, é claro. Sobrevive. Mas alterou-se de um modo decisivo. Onde nós vivíamos o Verão como concentração (nota: tenho plena consciência da marca de classe desta frase), hoje vive-se o Verão numa pressa ofegante, segundo modelos de aceleração permanente, numa espécie de "zapping" constante, a começar pela questão dos lugares: uma semana aqui, uns quantos dias ali, um salto a Espanha, tudo numa espécie de azáfama turística, em que a preocupação com não deixarmos de ser felizes quase impede que se dê espaço àquilo que é a verdadeira felicidade: um acontecer da vida sem razões nem consequências, um areal imenso e absoluto, a praia finalmente."

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Tranches de Corvina com misto de legumes

Um prato de peixe delicioso e fácil de fazer. Pode introduzir as alterações que a sua imaginação e gosto ditarem, designadamente nos legumes usados e no tipo de emulsão. Acompanhe com um Branco Seco. Eu acompanhei com um Adega de Pegões Colheita Seleccionada 2008. Uma delicia...

Corvina
1,5 kg de tranches de Corvina

Azeite virgem, sal e pimenta moída q.b.

Legumes
2 Courgettes

3 Cenouras

2 Alhos franceses

250g de cogumelos (marron, portobello)
3 Dentes de alho

Azeite, sal e pimenta moída q.b.

Emulsão

150g de Coentros
1 Dente de alho
1 Colher de sopa de Alcaparras

2,5dl de Azeite

0,6dl de sumo de limão

Pimenta moída q.b.



Comece pela emulsão. Misture tudo e leve ao liquidificador ou Varinha. Corrija a pimenta e o sumo de limão a gosto. Reserve.

Corte os legumes em juliana, os cogumelos aos bocados (quartos, dependendo do tamanho) e pique os dentes de alho finamente. Aqueça o azeite, junte o alho e salteie tudo em lume vivo. Tempere de sal e pimenta moída. Reserve.

Limpe as Tranches de Corvina e tempere com sal e pimenta moída 10 minutos antes de corar num fio de azeite virgem em lume muito vivo.

Aromatize as Tranches de Corvina com a emulsão e sirva de imediato.

Sessão da noite

Acrílico sobre tela;73x92; 2009

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Morreu João Bénard da Costa


Morreu mais um amigo destes que eu tenho; amigos desconhecidos... Com António Alçada Baptista formava uma dupla de amigos seguros que, embora sem conhecer pessoalmente, estavam sempre presentes quando era necessário e a eles recorria sempre com prazer renovado, como a porto seguro.
É destes homens que sentimos a falta; o país fica mais pobre e mais pequeno com a sua ausência.

Notícia

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Tiramisù



Nos últimos anos o Tiramisù tem sido amplamente divulgado e hoje é possível comer esta sobremesa na maioria dos restaurantes. Infelizmente a maioria das receitas de Tiramisù que por aí andam pouco têm a ver com a receita original.
Originalmente, o Tiramisù era preparado com restos, facto que explica a presença de café, provavelmen­te para amolecer bolos já duros. Segundo se crê, surgiu na Lombardia. A originalidade desta sobremesa consiste no contraste entre os ingredientes doces e amargos, respectivamente dos biscoitos e do cacau e café. Entre eles encontra-se o mascarpone, um queijo cremoso com um elevado teor de gordura e um sabor suave, semelhante ao das natas.

A excelente receita que se segue é um regresso às origens com a Chef Luisa Valazza que recomenda que se acompanhe esta sobremesa com Marasquino, um licor ginja da Dalmácia ou do Véneto.

Para 4 pessoas
5 gemas
50g de açúcar em pó
500g de queijo mascarpone
5 colheres de chá de conhaque
24 biscoitos de champanhe
3 colheres de chá de cacau
4 chávenas de café (bem forte)

1. Para o creme de mascarpone, bater num recipiente as gemas e o açúcar em pó. Juntar o mascarpone e o conhaque e bater durante uns minutos.
2. Embeber os biscoitos no café e reservar.
3. Fazer camadas intercaladas com o creme de mascarpone, os biscoitos de champanhe e o cacau em pó, na forma escolhida.
4. Terminar com uma camada de mascarpone. Levar ao frigorífico durante 4 horas. Antes de servir, polvilhar com açúcar em pó e o cacau peneirado.

Eu apenas fiz uma alteração na cobertura final em que usei chocolate preto ralado onde é proposto que se polvilhe com açúcar em pó e cacau peneirado.
Sugiro-lhe que ao embeber os biscoitos em café o faça numa operação rápida para que os biscoitos não fiquem ensopados em demasia. Também ao fazer as camadas de creme e biscoitos, a primeira camada deve ser de creme mascarpone, seguida do cacau e biscoitos. Depois repete e termina com o creme, pelo que, se quiser, pode optar por dividir o creme em três partes (tantas quantas as camadas). Pode utilizar o aro de uma forma circular não aderente de 24cm. Deve centrá-lo no prato em que vai servir o Tiramisù e, então, fazer as camadas sucessivas.
A minha experiência diz-me que a receita pode levar mais três ou quatro biscoitos de champanhe.
Ter em atenção que, depois de feito, o Tiramisù deve ir ao frio pelo menos 4 horas, dependendo da regulação do seu frigorífico, e só depois desenformado. O meu frigorífico está regulado para 3ºC.


Sem Título


Acrílico sobre papel; 2009

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Bochechas de Porco Preto em Vinho Tinto

Agora que as bochechas de porco preto começam a aparecer à venda nos hipermercados, aqui vai uma excelente receita que deve ser saboreada com um tinto robusto. Acompanhei com uma salada de batata e espinafres salteada em alho picado e azeite de tomilho e na qual utilizei também batata doce.

Bochechas
1200 g de bochechas de porco preto (12 bochechas)
0,5 dl de azeite virgem
Sal e pimenta q.b.

Estufado
0,5 dl de azeite virgem
50g Bacon em cubos
2 Cebolas
5 Dentes de alho
4 dl de caldo de carne (em alternativa de aves ou legumes)
2 dl de caldo de tomate
300g Cogumelos Paris
3 dl de vinho tinto de boa qualidade
1 piripiri
2 folhas de louro
Alecrim, Pimenta, Sal q.b.

Confecção
Limpe as bochechas de gorduras excessivas e tempere cerca de uma hora antes da confecção.
Sele as bochechas num pouco de azeite virgem e reserve.
Prepare um fundo com o azeite virgem, bacon, alho, cebola, piripiri e junte as bochechas e o louro. Refresque com vinho tinto. Adicione o caldo de carne e o molho de tomate previamente fervidos. Tempere de sal e aromatize com o alecrim seco em haste.
Deixe cozinhar lentamente; quando tenras retire as bochechas e o louro e triture o fundo.
Adicione de novo as bochechas.
Saltei os cogumelos Paris em azeite virgem, tempere de sal e pimenta e junte ao preparado das bochechas.
Rectifique de temperos e aromatize com alecrim em pó.

Acompanhe com arroz basmati (ou puré de batata doce ou misto de batatas salteadas com espinafres).

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